PERFIL

ELE ENXERGA O FUTURO
O paranormal Ivan Trilha explica porque resolveu ficar mais de 10 anos longe da mídia e fala do seu dom de antever as coisas

DANIELE HOSTALÁCIO
Um olhar cativante, a roupa toda branca, um abraço generoso. Pela casa, velas acesas, muitas plantas e um recanto com várias fotos e reproduções de recortes de jornais, com matérias que enfocam o dono da casa. Ao encontrar Ivan Sol Trilha pela primeira vez, é impossível não sentir uma energia diferente. A presença dele, de fato, é mobilizadora e inquietante. A palavra correta para defini-lo seria "misterioso". Há uma aura de mistério que o envolve, em especial quando observamos sua trajetória. Aos 54 anos, Ivan Trilha, paranormal, com poderes de vidência – consegue enxergar o passado e o futuro das pessoas – tornou-se referência no meio esotérico mundial, em especial entre os estudiosos da parapsicologia. Traçar o perfil dele não é tarefa fácil, pois mundo terreno e espiritual se misturam em sua biografia, e ele por vezes fala, com naturalidade, de coisas que escapam à percepção comum.

Fato é que hoje Trilha é procurado por centenas de pessoas, de todas as partes do mundo, para consultas. Ao todo, ele já morou em 58 países e chegou a atender 43 chefes de Estado e várias personalidades e artistas – nomes que, por questões éticas, ele prefere manter em sigilo. A história da paranormalidade sempre existiu na vida dele. Trilha vem de uma família com tradições esotéricas. Descendente de ciganos húngaros, ele nasceu no Rio Grande do Sul, para onde sua família emigrara, e sempre conviveu com a bisavó, uma cigana procurada pelas pessoas na região onde vivia, tendo sido guru de Getúlio Vargas, Perón e sua esposa, Evita, entre outras personalidades, devido ao seu poder de clarividência. "Minha bisavó era de uma extraordinária sabedoria. E ainda bem jovem eu já brincava com as cartas de tarô dela, que acabei herdando."

Da bisavó, ele herdou também a sensibilidade necessária para enxergar além das aparências. Aos 6 anos de idade já realizava curas, conversava com os animais e recebia para consultas inúmeras pessoas na cidade de São Borja, no sul do país. A manifestação precoce do dom, apesar de fugir à normalidade, foi encarada com bastante naturalidade pela família, em razão da descendência e do ambiente em que era criado. Ainda criança, quando ficou órfão, Trilha foi adotado por Neuza Goulart Brizola, irmã do ex-presidente João Goulart. A entrada da família Goulart na vida dele inaugura um marco. Com o golpe militar de 64, e a ida de Jango para o exílio, no Uruguai, Ivan Trilha acompanhou a família que o acolhera. "A partir dessa época, morando no exterior, conheci inúmeros estadistas e políticos, por meio de João Goulart, e passei a ser conselheiro espiritual de muitos deles", recorda-se.

Foi graças à amizade com o ex-presidente norteamericano John Kennedy que Ivan Trilha começou a ficar conhecido mundialmente. "Jango era muito amigo do Kennedy, e tive oportunidade de encontrálo algumas vezes. Sempre que eu via a Jacqueline Kennedy, me vinha a imagem de um caixão coberto com a bandeira dos Estados Unidos e acompanhado do número sete", revela. Nessa época, já conhecido no Brasil por seus feitos, Trilha foi convidado para participar do programa do Flávio Cavalcanti, na extinta TV Tupi. Querendo provas do dom de adivinhação de Trilha, os jurados do programa pediram que ele lhes dissesse uma previsão excepcional. "Eu contei que via a bandeira dos Estados Unidos sobre um caixão, sugerindo a morte do presidente." Um dos jurados, descrente, ironizou: "Mas todo mundo morre um dia." Foi quando Trilha completou a profecia: "Mas eu vejo também o número sete, o que indica que em sete dias, ou em sete meses, o presidente norte-americano morrerá." Sete dias depois, Ivan foi procurado, sem entender, por dezenas de jornalistas, que queriam saber como ele havia conseguido tal proeza, já que Kennedy acabara de ser assassinado. Devido a essa precisão, ele chegou a ser capa da revista Time, na época.

"Acho que a previsão da morte de Kennedy foi a mais exata que fiz na minha vida", conta. Mas outras existiram – como a da morte de Salvador Allende, ex-presidente do Chile –, além de feitos que escapam a explicações científicas. Aos 17 anos, por exemplo, ele recebeu o título de "Maior Mentalista do Mundo", depois de participar de um concurso na Colômbia, concorrendo com paranormais de vários países. "O concurso constava de testes. Em um deles, uma prova prática, consegui parar por alguns segundos, com o poder da mente, o relógio da Catedral de Bogotá", diz. Na mesma época, ele recebeu, no Japão, igual título, durante um congresso de Magia e Poderes Especiais. Também por essa ocasião, ele escreveu o livro O Poder da Mente, que se tornou um best seller e foi traduzido para mais de 20 idiomas.

Obviamente, a mídia alardeou essa e outras façanhas, de maneira que Trilha foi capa e tema de reportagens de revistas e jornais em diferentes países do mundo, em especial durante as décadas de 70 e 80. Em 79, a vida dele virou filme: O Fazedor de Milagres, pelas mãos do cineasta venezuelano Julio Neri. Mas, na última década, Trilha deixou de freqüentar a mídia. O movimento que vive hoje é de outra natureza. Resolveu se recolher para se dedicar à literatura, a pesquisas e a viagens em busca de maior conhecimento sobre, entre outras questões, as curas. "Depois de mais de 20 anos exposto à mídia, senti que aquilo sugava muito, que era extremamente desgastante, e resolvi me dedicar a uma nova fase da vida, de mais introspecção", explica Trilha.

O cansaço provocado pela fama e pelo sucesso surgiu, entre outros motivos, porque essas questões que envolvem espiritualidade e fé são sempre envoltas em muito sensacionalismo – em especial quando se trata de referências a possíveis curas empreendidas pelo vidente, que chegou a realizar estudos em que fez, com sucesso, as chamadas cirurgias espirituais (sem anestesia, assepsia ou instrumentos adequados, mas com cortes reais nos pacientes).

Apesar da peregrinação por diversos países, o Brasil foi sempre um porto-seguro. Atualmente, ele mora em Lagoa Santa, nos arredores de Belo Horizonte, mas possui uma empresa de consultoria, a Vincere, com sede aqui, uma filial em Miami e uma representação no Japão. O trabalho que Trilha realiza com a empresa é uma espécie de "consultoria espiritual" para pessoas ou organizações. Ele explica: "Hoje eu dou assessoria para bancos, governos, empresas e pessoas. Uso minha sensibilidade para identificar os problemas e apontar caminhos. Eu transformo energia negativa, que existe em cada um de nós, em energia positiva", explica.

O empresário mineiro Ângelo Couto, cliente assíduo de Trilha, contribui para explicar o que é hoje o trabalho que Trilha realiza: "Ele tem um lado místico e holístico muito desenvolvido, sensibilidade para enxergar o que acontece com as pessoas, para ver os problemas, as doenças", declara. O empresário foi testemunha desse poder, ao ter sido, ele próprio sujeito das intervenções de Ivan. "Eu o conheço há cerca de dois anos e, desde então, houve muitas transformações na minha vida. Ele foi em cima do que estava acontecendo comigo, identificando coisas perdidas no passado, e que precisavam ser resolvidas. Começamos a interagir cada vez mais e eu consegui empreender as mudanças. Estou convicto de que ele é uma pessoa especial neste planeta."

Assim também a mineira Mackleny Rosenburg, com quem Ivan está casado há cinco anos, encara a capacidade do marido. Mas, reconhece, viver com uma pessoa com um dom tão especial não é fácil. "A vida ao lado dele é uma incógnita. Nós saímos e nunca podemos planejar com exatidão para onde vamos, porque ele encontra as pessoas ao longo do caminho, e de repente é criado um canal entre eles e o Ivan começa a falar sobre a vida daquela pessoa, e nossos planos iniciais são alterados", comenta. Apesar de estar ao lado dele diariamente, ela revela que Trilha jamais fez previsões para a própria família. "Eu entendo isso como uma forma de nos proteger, de tentar separar as coisas e de levar uma vida normal."

Além da empresa de consultoria, Trilha dirige uma ONG de reflorestamento. "Tenho me dedicado às plantas, em especial àquelas em extinção e às com poderes medicinais e aromáticos", conta. A ONG possui ampla equipe, coordenada por Trilha, que atua em uma área nas proximidades de Belo Horizonte. "As plantas e os animais são algumas de minhas paixões", revela. Uma outra grande paixão é a música. Atualmente, ele prepara uma sinfonia new age. Mas o poder de clarividência ainda é o seu foco na vida. Algo que, ele sabe, mexe profundamente com o imaginário, dado o ancestral desejo dos homens de conhecer o futuro. Independentemente de se saber o que está por vir, ele acredita que o caminho ideal para qualquer ser humano já está traçado: "As pessoas precisam se voltar para dentro. O autoconhecimento é o caminho."

Fonte: Revista Encontro Importante – Seção Perfil – Junho/2004