ROTA DE VISIONÁRIO
Filho adotivo do ex-presidente João Gourlart, o vidente gaúcho Ivan Sol Trilha põe a sua paranormalidade a serviço da Bahia

JEANE BORGES

O vidente francês Nostradamus revela em suas profecias que o sucessor do papa João Paulo II, um papa negro será assassinado, o que dividirá a Igreja Católica e marcará o fim do mundo. O senhor acredita nisso? A religião não me interessa, mas não precisa ser Nostradamus para entender que não existe mais espaço no planeta para os poderes totalitários. Basta ver a queda americana dia após dia. Os impérios têm que cair para que haja a depuração e para que cada homem busque a sua liberdade individual.

Tom de voz pausado, olhar atento e inquietante, o vidente Ivan Sol Trilha vai emitindo opiniões entre baforadas de chaturo cubano, uma de suas predileções, a que se somam os passarinhos, as plantinhas e os homens, "obra de arte mais linda que o planeta já conheceu". Referência no meio esotérico mndial, ele é filho adotivo do ex-presidente João Goulart. Começou a desenvolver a sua mediunidade aos 7 anos de idade, por influência da avó Nicolina Trilha, uma cigana Húngara que lhe deu um tarô e anunciou que um dia ele seria muito famoso.

A previsão se cumpriu. Hoje, aos 53 anos de idade, o gaúcho nascido em São Borja, no Rio Grande do Sl, é conhecido, dentre outras façanhas, como o paranormal que previu a morte do ex-presidente dos Estados Unidos John Kennedy e que superou o paranormal Uri Geller, na Primeira Reunião Internacional de Fenomelogia Psíquica, realizada em Bogotá, Colômbia, em 1979. Há um mês em Salvador, Trilha viaja hoje para atendimento em outros Estados brasileiros e, depois, na Europa. Em maio, retorna à capital baiana para nova temporada de consultas.

Por conta da notoriedade, Trilha se acostumou a cruzar fronteiras e continentes para fazer consultas. Atende, no momento, cerca de mil clientes, entre políticos, empresários, jogadores de futebol, banqueiros, artistas e socialites em várias partes do mundo. Bem falante e detalhista, torna-se lacônico quando é solicitado a dar o nome dos famosos que usufruem ou usufruíram de suas habilidades telepáticas. "Questão de ética", alega.

Sob insistência, cita clientes como Julio Inglesias, o violinista espanhol Paco de Lucía e até Ray Charles. Na lista, estão o casal mais famoso da argentina, Evita e Perón, e os ex-presidentes da Venezuela, Luis Herrera Campins, e do Equador, Leon Febres Cordero. Nessas idas e vindas pelo planeta, Ivan descobriu a trilha da Bahia e, pela terceira vez, visita a terra que classifica como um "porto santo que toca tambores para acordar o universo".

MERGULHO NO MISTÉRIO - O homem que morou no Uruguai, França e Índia já decidiu que sua casa agora é a conexão Minas Gerais-Bahia. Tem casa lá e está determinado a montar moradia em Salvador. "Não posso ficar ausente dos companheiros das lutas africanas", justifica. A decisão faz sentido: além dos mistérios ciganos (coroa herdada da bisavó), o vidente Ivan também tem domínio de fundamentos africaos, concedidos pelo babalorixá baiano Joãozinho da Goméia, que morou no Rio de Janeiro nos anos 60.

Trilha se orgulha de ter partilhado da convivência com o pesquisador de candomblé e da cultura afro José Ribeiro, autor de Candomblé no Brasil e Segredos dos Búzios. Essa íntima ligação com o universo dos orixás também aconteceu na década de 80, quando esteve hospedado na casa de Mãe Cleuza, à época ialorixá do Terreiro de Gantois.

No trabaho de consultoria psíquica, Ivan Trilha utiliza cartaz de tarô e pêndulos para descobrir poços de petróleo e minérios. Tem uma empresa sediada em Belo Horizonte, com filiais em Paris, Miami e Japão. Atua com uma equipe de 20 colaboradores e mantém o Instituto Sol Trilha, encarregado, dentre outras tarefas, de distribuir alimentos para indigentes que vivem nas ruas. O gesto de doação é um bumerangue que retora em forma de paz e prosperidade, ensina Trilha.


ROTINA DE PARANORMAL

Na madrugada do dia 13, Ivan cumpriu mais uma vez o ritual com o povo de rua: distribuiu biscoito, suco, refriegrante e balas na orla de Salvador, com o auxílio de amigos. Antes, participou de uma sessão para trabalhar a energia de consulentes; dentre eles, uma cliente de Miami que veio à Bahia "só para fazer consulta com o mestre Ivan".

A paranormalidade faz de Trilha um homem atemporal e universal. Ele nunca tem certeza de onde estará no dia seguinte nem quanto tempo precisa para concluir um trabalho psíquico. A rotina dele é atípica. "Toda manhã, ao acordar, é uma surpresa para mim. Vejo que ainda estou nesse planeta. São 43 anos lutando para ajudar a tornar a Terra uma fábrica de iluminados", diz ele, que teve o nível de clarividência visto com distinção no COngresso de Magia e Poderes Psíquicos do Japão, em 1971.

Como se não bastassem tantas atividades e experiências, Trilha também se dedica ao cultivo de plantas medicinais e comestíveis. Mas prioriza o aprimoramento do ser humano: "O autoconhecimento é o caminho. É muito difícil para o homem ver o seu filme interior. Mas há aqueles que projetam dentro de si filmes tão maravilhosos, com mentes tão iluminadas, que se tornam referência para a população planetária", raciocina. Sol Trilha se refere a seres humanos como Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Glauber Rocha e Clementina de Jesus. Palavra de mestre.


O CAIXÃO DE KENNEDY

Aos 15 anos de idade, Trilha foi convidado a participar do programa do apresentador Flávio Cavalcanti, na extinta TV Tupi. Os jurados do programa pediram a ele uma previsão excepcional como prova dos seus dons. Ivan, então disse que via a bandeira dos Estados Unidos sobre um caixão, sugerindo a morte do presidente John Kennedy. Descrente, um dos jurados ironizou, ao observar que "todo mundo morre um dia".

Daí, Trilha completou a profecia. Disse que via também o número sete, "o que indica que, em sete dias ou sete meses, o presidente norte-americano morrerá". Sete dias depois, Ivan enfrentou o assédio de jornalistas impressionados com a façanha, já que Kennedy havia sido assassinado. A repercursão ganhou a mídia e o vidente foi capa da revista Time.

Reportagem Jornal A Tarde - 16 de Março 2005